E depois de muitos dias ensolarados com belíssimas tardes de céu limpo e bem azul, hoje temos um sábado nublado. Chove um pouco, o que nossa canela de pedreiro agradece porque o tempo estava até seco demais. Mas essa mudança de clima me fez lembrar sobre a finitude das coisas, como diz nosso pensador contemporâneo Neymar Jr., tudo passa. E passa mesmo. As vezes me pego lembrando de todas as coisas que eu já vivi e que eu achava que iam me matar, mas eu tô aqui vivona pra contar história. Se eu pudesse escrever uma carta para a Andreza de alguns anos atrás eu falaria tanta coisa. O que na verdade não é muito difícil pra mim, já que eu praticamente engoli uma vitrola quando nasci e falo pelos cotovelos. Como há dez, doze anos atrás a febre era o Orkut, neste caso eu escreveria um testimonial e ele seria mais ou menos assim:
“NÃO ACEITA!
Andreza do céu, eu tô vindo do futuro pra te falar que muita coisa vai mudar na sua vida e fazer sentido, desde os seus conceitos e preconceitos, até as dores e dúvidas que você vai viver. Sabe os relacionamentos que deram errado e te fizeram achar que na verdade nem existe essa coisa de amor? Então menina, do outro lado do mundo existe um homem que também nasceu em 1987 e que será tudo o que você pediu a Deus em oração. Ele vai te fazer tão feliz, que você vai decidir amá-lo por todos os dias da sua vida, mas você só vai vê-lo pela primeira vez aos 30 anos de idade. E entre tantas palavras e gestos, haverá um sorriso que vai ser o responsável por abalar suas estruturas e desmontar toda sua armadura de durona. Eu falei do outro lado mundo? Sim, daqui alguns anos você vai criar asas e voar. O mundo vai ser pequeno pra você e sua casa será do outro lado do globo. Você, que estudou a vida inteira na mesma escola, vai pousar em um país desconhecido, sozinha. Ninguém saberá quem é você e tudo vai ser conquistado aos poucos, inclusive amizades, mesmo com essa sua cara de poucos amigos, você terá muitos. Você vai se superar a cada dia, aprenderá a andar de bicicleta e vai ser até motogirl, aprenderá uma nova profissão, aprenderá a ser resiliente, aprenderá a ter empatia, aprenderá que faltar no trabalho pode custar uma conta de luz ou de água, aprenderá que não dá pra pedir demissão quando quer porque você não é a Rochelle, aprenderá que as pessoas pensam diferente de você, tem crenças diferentes da sua, tem planos diferentes dos seus, mas que está tudo bem assim. Aprenderá que as vezes seu jeito justiceiro e barraqueiro será necessário em algumas coisas, mas na maioria das vezes é melhor esperar que as coisas se ajeitam sozinhas. Aprenderá que tudo tem limite e que ainda que você chore muito no chuveiro, o mundo continua girando e não vai parar por você. Aprenderá que ainda que você queira fazer tudo sozinha, as vezes não vai ser possível e você precisará de ajuda sim. E tá tudo bem não ser auto-suficiente. Aprenderá a perder o medo de barata, a comer ovos e bacon de manhã e vai descobrir que há um tempo pra absolutamente tudo. Dias bons passam e os dias ruins também. Nada é o fim do mundo (a não ser que seja realmente o apocalipse) e que você vai sobrevier a 100% dos seus dias ruins. O Brasil vai perder de 7×1 em casa, mas na Rússia o Hexa vem. Muita água vai passar debaixo dessa ponte e tudo vai fazer sentido pra você, mesmo que hoje você não entenda. Sua faculdade “status” que você nem gosta não vai ser o que vai te levar pra onde você quer ir, porque status não leva ninguém a lugar nenhum, são os sonhos que nos movem, e você vai se realizar estudando Relações Internacionais. Seu carro zero km e depois seu carro mais velhinho farão a mesma coisa pra você, mas vai chegar uma época que a gasolina vai estar tão cara que nenhum dos dois vai ter função. Você que era bem preconceituosa vai ter amigos tão diferentes que nenhum dos seus preconceitos serão cabíveis e você vai ver que todos somos um, mas que cada um é um universo particular. Você vai ser daquelas que não terão um salário muito dos bons por uma boa temporada, mas um dia seu trabalho vai ser tão elogiado que você vai poder pedir um mês de folga e seu chefe vai dizer “ficaremos felizes em te receber de volta”. E esse trabalho vai ser com todos os direitos assegurados pela lei e você vai tê-lo enquanto você ainda for apenas uma imigrante com visto de estudante. Bom, muita coisa vai acontecer nesses anos que separam o momento em que escrevo esse depoimento até o momento que você está vivendo aí no começo dos anos 2000. Mas uma coisa eu te garanto: entre choros e risos, há um Deus que nunca vai te abandonar, mesmo que você faça por merecer. Ele só vai ver as merdas que você faz e vai dizer “mano, lá vem ela fazer cagada de novo. Aí ela dá chilique e daí fica sem graça quando descobre o que Eu tô preparando pra ela!”. BoM mIgUxA, Um BeIjO dIrEtO dE 2018! (brincadeira, no futuro ninguém mais vai escrever assim). E pelo amor de Deus, não use tamanco de madeira com um coração vazado e pára de usar calça apertada cintura baixa. No mais, trilhe seu caminho respeitando sempre sua essência por que isso ainda vai te levar muito além. Você é mais forte do que pensa e será mais feliz do que imagina.”
Gratidão ♥





idioma consegue traduzi-lo em sua essência. A galera usa um tal de homesick que pra mim é um jeito bem tosco de falar que está com saudades de casa. Não há homesick ou to miss que traduza o que é estar longe dos seus. A gente faz planos e para colocá-los em prática enfrenta perrengues, abaixa a cabeça pra muita coisa, engole seco quando riem dos seus sonhos X sua realidade atual, encara os dedos de julgamentos apontados pra você, deixa pelo caminho a família e os amigos, abre mão de acompanhar seus afilhados e seu cachorrinho novo crescerem, deixa pra trás um tanto de momento épico, mas nada disso machuca quanto a saudade. E no Natal, que é época de relembrar o quão estar em comunhão com quem você ama é essencial pra uma vida saudável física, mental e emocionalmente, é que ela vem sem freio.
Enxuguei as lágrimas e a partir daí eu me posicionei como a mulher que largou tudo em seu país pra ir atrás de um sonho, que batalha dia e noite fora da sua zona de conforto pra tornar o sonho realidade. Que encara acordar as 5 da manhã no final de semana pra aprender algo novo num país que não é o dela, numa língua que não é a dela numa profissão que ainda não é a dela. Eu vim do país do 7×1, do golpe presidencial, da grávida de Taubaté, da gasolina a R$ 4,00 o litro, do arrastão na praia. Tentam me derrubar e fazer desistir, logo eu, que já tô deitada porque aqui a balada acaba cedo, o Sol nasce as 4h30 da manhã e que sou GALO doido.


