Bem amigos, então é isso. Eliminamos o Japão, um país queridíssimo, pra passar vergonha contra a Noruega. Um vexame. Uma campanha digna de episódio do Chaves, mas sem as risadas em cada cena. Agora voltamos programação normal e esperemos que nesses próximos 4 anos tudo se renove na seleção brasileira. Eu, como boa torcedora do Clube Atlético Mineiro, já estou calejada de passar raiva assistindo futebol. Mas o que eu não estou acostumada é com a sensação de não pertencimento.
Dia desses fui ao norte do estado pra festa de casamento da minha cunhada. Prometendo tudo: evento sem crianças (inclusive, aqui isso é bem comum), um resort paradisíaco, festa black tie. Parafraseando Bebel, de Paraíso Tropical, foi uma boa ideia esse casamento primaveril em pleno inverno.
Fiquei animadíssima porque eu sou latina & sagitariana e meu sobrenome é festa. Fiz um book de fotos pra recordar esse momento chiquérrimo. Fiz vídeo pro Instagram. Fiz um esforço descomunal pra me soltar e curtir o fim de semana a 1.300km de distância dos meus filhos. Entretanto, como a vida do imigrante não é um morango, é nos pequenos detalhes que a gente percebe que não pertence.
Sem considerar aqui as diferenças culturais – até porque eu tive motivos fortíssimos pra ter me casado no Brasil, além da proximidade com a família e os amigos – o que me deixou pensativa foi o momento em que me peguei dançando sozinha. Não havia pista de dança, eram mesas de jantar lindas e enormes e as pessoas dançavam ao redor dessas mesas, mas eu estava lá num cantinho, super animada, dançando uma música que adoro. Quando ela acabou eu percebi que eu não fazia parte dali. E quando o lugar não é pra mim, eu me retiro. Já falei sobre não forçar e não tentar fazer caber aquilo que simplesmente não nos cabe.
Tempos atrás eu fazia parte de um grupo brasileiro de dança, mas também senti que aquele já não era mais meu lugar. Eu não pertencia. Veja bem: isso mostra que não necessariamente você precisa ser estrangeiro pra não pertencer a um grupo. O fato é que eu fiquei mexida com aquela situação, talvez por estarmos em época de Copa do Mundo e o que chamamos de homesick (saudade de casa) venha com intensidade e nossos sentimentos à flor da pele.
Ver meus filhos crescendo tem me ensinado muito sobre a necessidade que temos de fazer parte de uma comunidade. É uma necessidade biológica e evolutiva do ser humano viver em grupo, de pertencer a uma sociedade. Estudos recentes, inclusive, mostram que casos de demência aumentam significativamente em pessoas que sofrem de solidão e isolamento social do mundo moderno. E essa é uma das batalhas de quem vive no estrangeiro, quando a gente já não pertence nem lá nem cá.
Administrar com jogo de cintura e driblar a dor de se sentir só em meio a multidão, enquanto precisa performar um idioma de gramática perfeita e sem sotaque, ser uma excelente mãe, ter uma barriga tanquinho… e ainda carregar a saudade de comer uma coxinha com uma coquinha gelada no boteco duvidoso da esquina, passa a pesar toneladas quando é dia de jogo da seleção e você precisa trabalhar mesmo assim. Sabe, aqui quase ninguém se importa com Copa do Mundo. Ah, se ao menos o chefe levasse a TV pra equipe assistir o jogo na firma mesmo, tava bom demais!
A gente que é firanghi estrangeira, está muito mal acostumada. As nossas festas de casamento unem até quem não se conversa mais e tem gringo dançando Envolver no chão da pista de dança. Em campo nos acostumamos a ver a outra torcida em silêncio enquanto os Ronaldinho’s davam o show. E o resto do time fazia o básico extremamente bem feito. Quem seria Haaland na fila do pão? A sensação que tenho é que nós (nos) perdemos quando deixamos o batuque do samba de lado pra nos adaptarmos a uma identidade que não é nossa.
E é estranho quando, de repente, nem o arroz com feijão a gente faz mais.
Nem em casa.
Nem em campo.

“NÃO ACEITA!




idioma consegue traduzi-lo em sua essência. A galera usa um tal de homesick que pra mim é um jeito bem tosco de falar que está com saudades de casa. Não há homesick ou to miss que traduza o que é estar longe dos seus. A gente faz planos e para colocá-los em prática enfrenta perrengues, abaixa a cabeça pra muita coisa, engole seco quando riem dos seus sonhos X sua realidade atual, encara os dedos de julgamentos apontados pra você, deixa pelo caminho a família e os amigos, abre mão de acompanhar seus afilhados e seu cachorrinho novo crescerem, deixa pra trás um tanto de momento épico, mas nada disso machuca quanto a saudade. E no Natal, que é época de relembrar o quão estar em comunhão com quem você ama é essencial pra uma vida saudável física, mental e emocionalmente, é que ela vem sem freio.
Enxuguei as lágrimas e a partir daí eu me posicionei como a mulher que largou tudo em seu país pra ir atrás de um sonho, que batalha dia e noite fora da sua zona de conforto pra tornar o sonho realidade. Que encara acordar as 5 da manhã no final de semana pra aprender algo novo num país que não é o dela, numa língua que não é a dela numa profissão que ainda não é a dela. Eu vim do país do 7×1, do golpe presidencial, da grávida de Taubaté, da gasolina a R$ 4,00 o litro, do arrastão na praia. Tentam me derrubar e fazer desistir, logo eu, que já tô deitada porque aqui a balada acaba cedo, o Sol nasce as 4h30 da manhã e que sou GALO doido.
