O Carrinho de Compras

Vocês já foram ao supermercado e pegaram exatamente o carrinho que faz um barulho chato, tem a roda travada e não faz curva? E a sensação de que as pessoas estão incomodadas porque seu carrinho simplesmente não sai do lugar? Nossa senhora dos carrinhos de supermercado! Parece que toda vez é a maldição do carrinho entrevado.

Agora, você já pensou assim: só eu tenho esse problema na vida? Só eu não sei fazer tal coisa. Só eu não tenho um salário astronômico. Só eu que não tenho a vida que fulana mostra no Instagram? Só eu que não viajo pra Europa? Só eu que não fui convocado pra Copa? Só eu que não sou feliz como os outros são? Pois bem, eu vim te dizer que a nossa vida é assim como todos os carrinhos de compras: têm alguma imperfeição.

Há pouco tempo atrás eu decidi que queria aprender a fazer café profissional, como baristas fazem. Eu não estou pretendendo mudar de função agora, mas eu quero ampliar minhas habilidades. Então me inscrevi em um curso básico pra aprender sobre grãos de café e tudo o que envolve os primeiros conhecimentos sobre café de cafeteria. Mas essa é uma prática que exige um alto número de repetições. O tal do leite vaporizado é mais difícil de acertar do que aprender a andar de bicicleta aos 29 anos de idade! Meu Deus, uma hora ele grita, outra hora tem muita espuma, outra hora passou do ponto e muito quente, outra hora simplesmente é imbebível.

Vídeo do meu curso de Barista Auto Prática

Eu sou neta de dona Maria, do café coado e leite fervido na leiteira. Aquele leite que se você ficar olhando nunca esquenta, e assim que você virar as costas, o abençoado vai ferver de uma vez, entornar e sujar todo o fogão. Mas eu cheguei à conclusão, mesmo com pouco incentivo de onde eu mais esperava ter, que está tudo bem não ser perfeita em cada xícara e que se eu não tentar de novo, eu nunca vou chegar lá.

Essa semana fui fazer compras e na frente do mercado passou por mim uma mulher com o carrinho tek tek tek tek! Eu dei risada e pensei: “rapaz! Tá todo mundo empurrando o mesmo carrinho de supermercado. Nós não somos perfeitos mesmo!”

Eu tenho tantos defeitos. Não sou boa com números, por exemplo. Estou cheia de espinhas novamente, mesmo depois de quase surtar tomando Roacutan. Não sou a mãe mais paciente do mundo. Não vou à Europa duas vezes ao ano. Nem uma. Nem vou. Não tenho carro do ano. Nem compro escova de cabelo de R$ 300 ou uma bolsa Chanel. Não corro 10km em menos de 1h. Não pego 180kg no legpress. Mas eu tenho qualidades que me orgulham de ser quem eu sou, tenho bênçãos na minha vida que me fazem agradecer todos os dias pela dádiva de acordar pela manhã. Mesmo odiando acordar cedo. E é isso que nos faz humanos. A busca pela perfeição que só existe nas redes sociais faz a gente adoecer e se esquecer de que o extraordinário é isso aqui.

Num mundo de harmonização facial e dentes de porcelana, que sejamos a beleza da imperfeição. E se, realmente, a parte que nos falta seja um desejo enorme do nosso coração, que saibamos esperar a hora dela chegar, acontecer. E que essa espera seja em movimento. Sem comparação, sem pressa, sem pressão. Porque tudo o que a gente precisa ou já é nosso ou está a caminho. E no fim das contas, a vida é isso:  aprender a seguir adiante mesmo no meio do tek tek tek tek.

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