Do luto à luta

Sétimo dia do segundo mês de dois mil e dezoito. O ano mal começou e eu já o curto pakas. Na matemática das perdas e ganhos, eu uso a calculadora pra somar bençãos. Na verdade só uso porque não sou boa com números mesmo, mas conto cada uma delas, e mesmo assim meu chefe no café resolveu me colocar pra atender também no caixa. Que a misericórdia de DEUS caia sobre mim, porque contar dinheiro em inglês vai ser um super  upgrade pro meu cérebro acostumado com memes. Mas como a vida é uma grande Olimpíadas do Faustão, nem todos os dias de verão são de Sol queimando a moringa, as vezes aquela tesmpestade no meio da tarde nos pega de jeito e a gente não tem nem pra onde correr. Notícias indesejáveis não passam só na TV, as vezes elas vem de bem pertinho. Entre tantas perdas que a gente encara na vida, perder alguém é parte de um trabalho intenso de saber lidar com a finitude do ser. Os ciclos, o começo, o meio e o fim. O fim está próximo, mas próximo daquele que ainda não reconheceu o que viemos fazer neste plano. Gratidão será ensinada aula após aula até que a gente aprenda que a única riqueza que temos na vida não atende pelo nome de coisas, atende pelo nome de pessoas. Todas as pessoas que a gente conhece e que de alguma maneira contribuiram pra nossa vida, ou seja: TODAS.

Neste dia eu recebi a notícia de que um grande amigo, um irmão mais velho, maior incentivador da minha busca pela carreira culinária, que me pediu em casamento por causa de uma simples panqueca, que me ensinou a fazer o melhor beef goulash de Brisbane, que me fazia rir todas as noites três vezes na semana, que me deu de presente de aniversário um curso de culinária especializada acompanhado de um cartão musical, que me contava sobre coisas da vida, me fazia esquecer que na Hungria as pessoas são frias, que não poupava elogios à mim, que toda vez falava que eu tava magra demais mesmo eu não mudando 1g sequer, que agradecia todos os jantares e que hoje me fez triste o dia todo, mas me fez lembrar o quão rica eu sou, tirou a própria vida. Com um breve abraço seguido de um “take care of you” poucas horas antes do ato desesperado, ficou gravado então nosso último contato, pra sempre. E mais uma vez eu agradeço a DEUS por ser tão cercada de pessoas excepcionais ao meu redor. Tenho SIM a melhor família , os melhores amigos, o mais doido cachorro, os melhores patrões e entre outros mais lindos, do mundo.

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Eu vejo que a sensação de solidão é uma dor que quem não sente não entende, mas quem não se compadece pelo outro sentir, está ainda mais doente do que ele. Se sentir só dói, e não existe remédio na farmácia pra isso. Essa sensação pode morar dentro de quem você menos imagina, sorrisos escondem muitas dores, redes sociais não mostram o caos de cada um e, voi là, é através do visível aos olhos que julgamos se alguém é ou não feliz. Oi? Quando foi que ver o próximo pela alma virou obsoleto, mesmo? O outro pode se sentir tão só quanto um dente na boca de um boliviano mascador de folha de coca e a gente nem sabe. Pode ter seguidores enlouquecidos nas redes, um baita dum salário, um carrão com IPVA mais caro que uma passagem de primeira classe para Paris, mas dentro dele só existe o vazio. O vazio que apenas um “você é especial, obrigada por existir” poderia preencher um pouquinho mais a cada dia. A gente não precisa falar que ama se não ama e não precisa trocar mensagens instantâneas o tempo todo, mas mostrar o quanto alguém é especial é de graça e não consome energia, aliás, só compartilha energia das boas. Não é todo mundo que sabe que DEUS amou o mundo de tal maneira que deu Seu filho unigênito para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna e que o amor dEle é mais que palavras, é o espinho na cabeça e os braços abertos por nós. E essas pessoas estão vivendo uma guerra interna que a gente não sabe nada a respeito. Sejamos gentis, sempre.

Mesmo não ligando muito pra dinheiro, já que sou de humanas, precisei vir para um país rico pra saber que não há riqueza no mundo que seja maior do que ter pessoas ao seu lado. Acumule amores, não dinheiro. O dinheiro acaba e não compra de volta alguém que se foi. Não compra momentos de felicidade compartilhada. O dinheiro paga a breja do fim de semana, mas não paga a festa surpresa que seus amigos te fazem a 13mil km de distância. O dinheiro não paga o sorriso dos seus pais pela chamada de video quando você conta suas histórias do outro lado do mundo, ele compra uma passagem pra você ir até eles, mas não paga o encontro perfeito que acontece enquanto você não pôde ir. O status de redes sociais não torna sonhos realidade, e quando a gente acredita demais no que vê por fora do outro, nossa grama começa a ficar menos verde. Eu andei bem chateada uns dias atrás com o fato de trabalhar tanto pra pagar uma escola tão cara enquanto eu poderia estar viajando pelo sudeste asiatico ou me enchendo com todas as tatuagens que eu quero fazer, mas nesse dia de luto eu lembro o porque estou aqui. Um grande incentivador do meu sonho se entregou e desistiu de viver, mas eu nunca vou esquecer que sou movida a sonho, fé e café. E a amor. ❤

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